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8 de março de 2017

Mulher, fertilidade e adoção: barreiras e preconceitos

Por Roberta Assunção

Eu sou uma mulher casada de trinta anos. Uma semana não se passa sem que as pessoas me perguntem quando eu terei filhos. Veja bem, não são apenas os amigos. Qualquer pessoa que sabe pelo menos o meu nome, se sente automaticamente no direito de fazer essa pergunta porque vivemos em uma sociedade que presume que todas as mulheres devem ser mães e as pressiona para cumprir esse papel. A fertilidade das mulheres é pauta de discussão pública.

Assim, imagine o baque para uma mulher que sonha em ser mãe descobrir a infertilidade. Há primeiramente o seu próprio luto, a tristeza de saber que os sonhos de gerar um filho não serão concretizados. É preciso se aceitar nesse novo quadro, se eximir de culpa. Essa mulher tem, então, que lidar com a pergunta dos colegas, da família e dos amigos “Quando você terá filhos?” e eu não tenho como entender o peso desse questionamento para elas.

Para muitas dessas mulheres, a infertilidade não é o fim do sonho da maternidade, mas uma mudança de caminho. Elas começam a reconstruir os seus conceitos de maternidade e buscar alternativas. Há as que optam por tratamentos de fertilidade ou barrigas de aluguel. Para outras, a adoção aparece como uma alternativa, uma luz. Essas mulheres ávidas encontram na adoção um desafio de paciência, pois podem esperar anos e anos. Tem que lidar com a sua ansiedade de conhecer seus filhos, ver seus rostinhos, cuidar e encher de abraço. E tem que lidar com a pressão de uma sociedade que não se sacia.

Uma amiga me contou que conhece uma mulher que começou a espalhar pela empresa em que trabalhava que tinha desistido de adotar. Apenas para os mais próximos ela dizia: “Ainda estou na fila de adoção, está tudo correndo bem, mas eu não aguentava mais as pessoas me perguntando isso todos os dias”.

Há ainda as mulheres que na sua fertilidade, resolvem ser mãe por adoção. Elas simplesmente escolhem uma alternativa diferente para ter filhos. Elas também são alvos da sociedade que lhes questiona: “Quando vai ter os seus?” ou “Por que você vai criar menino dos outros?”

Quando, finalmente, a adoção se concretiza e a maternidade se realiza, essas mulheres recebem na sua casa os seus filhos, velam com carinho seus sonos e cuidam para que a adaptação àquela nova vida seja a melhor possível. Então, é a hora de apresentá-lo a sociedade. Então as pessoas perguntam: “Quem é a mãe de verdade?” e a mulher percebe que sua luta para mudar e educar essa sociedade está só começando.

É preciso percebemos que as mulheres não são apenas seus úteros. Não são pequenas fábrica de reprodução humana. Nem sempre tem o dom da maternidade. Podem até simplesmente não querer ter filhos. Mulher não é sinônimo de fertilidade. Mas, além disso, é preciso que a sociedade aprenda que ter ou não filhos é uma escolha e uma experiência pessoal e íntima. Independentemente da maneira como a maternidade acontece, biológica ou adotivamente, ela é plena. Não furtem às mulheres que se tornam mãe por adoção do seu título de mãe. Elas não geraram aquele filho, mas são elas que os amam incondicionalmente.

 

*Roberta Assunção é jornalista, voluntária do departamento de comunicação e ex-presidente do Projeto Acalanto.